Alimentos que estão sumindo da mesa!
- biologar

- 10 de jun. de 2021
- 7 min de leitura
Confessa, quando você está com fome e senta na mesa já sentindo o cheirinho do seu prato preferido e quando ele finalmente chega à sua frente, já se pegou pensando se algum dos itens dali corre risco de extinção?
Acho que não, é muito difícil que na fome mesmo haja raciocínio! É bem normal não pensarmos e esse post é exatamente para refletirmos sobre quais alimentos estão prestes a sumir de nossa mesa e por que ninguém se questiona muito sobre isso. Saiba mais através do post abaixo ou ouça o conteúdo em podcast pelas plataformas digitais de áudio.
Muitas vezes sem perceber, talvez por conta dos hormônios produzidos quando estamos com fome (veja mais no post "A culpa é dos hormônios"), ou por costume, cultura ou até mesmo de inconsciente influenciados por propagandas e manobras comerciais sobre um produto economicamente rentável.
Se você nasceu até meados dos anos 80, deve lembrar que na década de 90, o filé de peixe branco, sem espinho era a pescada. No entanto, após a evolução de um acordo em 67 entre a Argentina e o Brasil, barcos pesqueiros argentinos passaram a descarregar os peixes no Brasil para posterior beneficiamento e encaminhamento para outros países (como EUA) sob a condição de parte desse escoamento ficar para o comercio local: assim, chegava ao Brasil o filé de merluza. Curiosidade: merluza é um nome popular para várias espécies diferentes de peixe (umas 10 espécies) e que possuem por hábito vive nas profundezas durante o dia e sobem a superfície de noite. Com o aumento da demanda no Brasil, se concluiu que ficar separando e classificando merluza em A e B para exportar era mais caro do que enviar a merluza interfolhada para empacotamento no próprio Brasil. Foi quando criaram umas caixas de filés congelados já do tamanho da gaveta dos freezeres domésticos e depois em sacos. Nesse ponto já estavam estabelecidos acordos comerciais com o grupo Pão de Açúcar.

O cenário permaneceu assim até 2011, quando a busca por filés brancos com preço médio mais baixo destronou os hermanos por conta dos produtos da China e do Vietnã (polaca e o panga). A WWF (World Wide Fund for Nature) aponta que a quantidade de peixes nos oceanos caiu pela metade desde 1970, devido a pesca predatória, poluição e outras ameaças.
Há tempos um alimento básico da culinária mediterrânea e do leste asiático, o polvo é agora considerado uma iguaria global, impulsionada pela popularidade dos sushis, tapas e pokes. A demanda e os preços subiram nos últimos anos, mesmo com uma menor quantidade de polvos sendo capturados em locais que tradicionalmente capturam grandes quantidades do pescado, como a Espanha e o Japão, e com os oceanos mais quentes e mais ácidos ameaçando ainda mais a população desses animais. Em novembro de 2020 a National Geographic publicou uma matéria revelando que 420 mil toneladas de polvo são capturados mundialmente, grande parte para consumidores abastados na Coréia do Sul, Japão, Espanha, Itália, Portugal e, ultimamente, nos Estados Unidos.
Embora o Pulpo a la gallega seja o prato nacional da região da Galiza, é necessário importar ~20 vezes mais polvo do que se captura localmente. Na natureza, os polvos se reproduzem uma vez, param de caçar e morrem. As fêmeas passam as últimas semanas de vida cuidando dos ovos. (Os nautilus são os únicos membros da família dos cefalópodes, que também inclui lulas e sépias que se reproduzem repetidamente). Nem precisa dizer que esses animais estão cada vez mais raros de serem encontrados.

E a produção desses animais em aquicultura não tem muito sucesso, são animais mais sensíveis a dor, estresse da monotonia do confinamento, parasitas e infecções, diferente dos camarões. Por falar neles, lembra que até o fim dos anos 90 era uma iguaria aqui no Brasil? Os pratos com eles eram muito mais caros do que hoje em dia, mas para exemplificar a própria rede Vivenda dos Camarões eram restirantes mesmo e somente as famílias mais abastardas conseguiam frequentar e hoje em dia depois da evolução das técnicas de aquicultura de camarões no nordeste o Vivenda dos Camarões virou uma rede espalhada no brasil todo servindo pratos rápidos em praças de alimentação!
Não é de agora que se fala do risco de extinção do bacalhau, o quadro crítico dos cações é bastante apreciado por terem poucos espinhos mas se reproduzem uma vez ao ano e o consumo é mais alto do que a reposição nos mares. Além da caça de tubarões em alto mar que após serem capturados tem suas barbatanas mutiladas (para produção de alimento e cosméticos nos países asiáticos e espalhados para o mundo todo). Ainda vivos são jogados no mar para morrerem, pois sem as barbatanas não conseguem nadar, com isso mais de 90% da população dos grandes tubarões já desapareceram, são 150 milhões mortos por ano dessa forma. Por ultimo, sabia que a espécie de atum consumida hoje não é a mesma de antes? Pois é, a anterior já foi extinta...
Conhece Slow food? É um movimento e uma organização fundada na Itália e chegou ao Brasil em 2009, que tem como missão defender a biodiversidade alimentar e tradições gastronômicas em todo o mundo, além de promover um modelo sustentável de agricultura. A fundação criou um catálogo mundial chamado “Arca do Gosto”, que conta com mais de 3.500 alimentos, divididos em raças animais, frutas e hortaliças, de diversas partes do mundo, que correm risco de desaparecimento de culturas e tradições gastronômicas. Desse total, cerca de 130 produtos são brasileiros. Alguns critérios para esses alimentos entrarem na lista são:
qualidades gastronômicas especiais,
ligação com a geografia local
produção artesanal, ênfase na sustentabilidade e risco de extinção.
E não é apenas o desaparecimento biológico que é considerado, mas também o abandono da tradição de consumo desses itens. São exemplos dessa lista:
Jabuticaba- Uma frutinha pequena, de casca preta, polpa branca e sabor bem adocicado tão doce que fermenta rapidamente (dura 3 dias) e não chega a muitas pessoas.
Umbu é um fruto típico da caatinga no nordeste brasileiro e corre risco de desaparecer devido à introdução da caprinovinocultura, principal fonte de renda das famílias da região.
Palmito-juçara- sofre com o risco de extinção devido aos métodos não sustentáveis que são utilizados para a sua extração, que diferente do açaí e de outras palmeira utilizadas na culinária não crescem em touceiras com vários caules, o seu caule é único e uma vez cortado ele morre. Além disso, leva quase 10 anos para produzir seus primeiros frutos viáveis.
Pinhão- tem um post dedicado a ele!
Amêndoa de baru- barueiro é uma árvore típica do cerrado que está em extinção devido à extração da sua madeira e a transformação das áreas onde se encontram em grandes espaços de monocultura, principalmente da soja. Aliás, o mesmo ocorre com o pequi e com o guaraná nativo (semente tipicamente brasileira) e que é uma das nossas riquezas naturais.
Pirarucu- é um dos maiores peixes de água doce e fluvial do Brasil. O grande problema é que o pirarucu se tornou uma das maiores presas da pesca predatória na Amazônia.
Ora-pro-nobis- é uma planta que, apesar de não sofrer risco de desaparecimento biológico, entrou na lista por ser pouco valorizada na gastronomia. Embora cresça com facilidade, especialmente em Minas Gerais, ela é pouco utilizada até mesmo entre os mineiros. Ele é tão rico em proteínas que chega a ser considerado uma carne vegetal.
Pitanga- o problema é o transporte, pela a fruta ser delicada, é complicado fazer com que ela chegue ao consumidor final e acaba sendo consumida apenas por quem tem uma pitangueira por perto.
Queijos como: queijão de Morro Vermelho, branco, coalho de cabra da caatinga, colonial, colonial diamante, parmesão da Mantiqueira, serrano, serrano dos campos de cima da serra e o Queijo Canastra com produções artesanais e pouco rentáveis até o momento apesar de serem verdadeiras iguarias no sabor.
Arroz vermelho- foi o primeiro tipo de arroz cultivado no Brasil, ainda na época colonial. Ao longo do tempo, ele perdeu lugar para o arroz agulhinha branco, o mais consumido pelos brasileiros. Aliás já abordamos sobre ele no post Selvagem x Doméstico onde as espécies silvestres em geral possuem a cor vermelho ou arroxeado, riquíssima fonte de antioxidantes, são exemplos a banana silvestres, o milho, o abacaxi e tantas outras que podem ser fontes de medicações e curas de doenças.
Laranja - sabia que no mundo existem mais de 700 espécies de laranja? Aqui no Brasil existem, além da pera, da Bahia e da lima comumente encontradas nos mercados, a laranja vermelha, a da terra, a seleta e a barão.
São inúmeros os exemplos de alimentos que podem desaparecer, seja por extração não sustentável, seja por pouca valorização comercial ou manobras de contratos comerciais.
E agora? É o que tem no mercado para comprar, o que fazer? É super válido conhecer a origem do seu alimento. Desde 2014 o Wall Mart passou a informar os seus clientes sobre a origem dos seus pescados, que na ocasião eram classificados em três categorias: verde, amarela e vermelha. A primeira inclui espécies abundantes e capturadas de forma amigável, enquanto a segunda apresenta certa precaução quanto ao método de pesca. A categoria vermelha identificava espécies de pesca predatória, captura acidental ou métodos que causam sérios impactos ambientais. Inclusive, os filés de merluza que comentamos foram classificados como vermelho. Esse tipo de informação estimula uma produção mais consciente. Esse tipo de iniciativa entre grandes empresas e a causa fortalece o investimento e compartilhe esse tipo de informação, quanto mais pessoas interessadas no tema maior vai ser a chance de dar certo!

Outra opção é buscar contato próximo com os pequenos produtores em feiras, aplicativos, cooperativas e reduzir o consumo de itens industrializados conforme for possível em seu dia dia. Além de tudo, ajuda a promover o comercio local e da maiores chances aos que mais precisam nesse momento de crise, sem fazer com que dependam de ajuda governamental. Com esse ajuste na rotina muitas pessoas passaram a ter uma alimentação mais saudável durante a pandemia! Que tal tentar?
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