Moda e sustentabilidade - Parte 1
- biologar

- 15 de jul. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de jul. de 2021
Olhando para as roupas que você usa todo dia, já parou para pensar como se chegou nos modelos e tecidos usados hoje? Ou o que a moda representa? Acho que também nunca pensou na relação entre moda e sustentabilidade, muito menos o motivo desse tema estar aqui no Biologar. Parecem temas distantes, mas eles estão super conectados.

Que tal começarmos essa reflexão agora? Para facilitar vamos começar pela ordem cronológica: a roupa surgiu há 6.000 anos atrás como forma de adaptação do homem, seja para esconder a nudez, se proteger do frio, da chuva e do calor, e naquela época a matéria prima disponível era pele de animais. O homem é um animal que se difere dos outros pelo poder de adaptação, imagina que nesse passado distante, as agulhas eram feitas de ossos.
Desde o início, a roupa é uma forma de expressão de estilo pessoal, criatividade, senso estético, imagem, personalidade e status afinal, tudo isso tem um custo. Na Mesopotâmia já havia técnicas de tingimento para poder fabricar os diferentes modelos. No Egito, os faraós se diferenciavam dos demais pelo estilo e cor da roupa. A cor do tingimento indicava status devido as dificuldades e custos para obter determinadas cores, como o roxo.
E não para por aí, considerando o último século, acontecimentos como a 1ª Guerra Mundial influenciou bastante na moda. Sim, 1º devido a escassez de material foi preciso "encurtar" roupas, até as saias e chapéus. Outra adaptação foi a necessidade de desenvolver roupas femininas mais confortáveis para o trabalho já que os homens haviam sido mandados para a guerra e a mulher passou a ser a principal fonte de mão de obra. Outra coisa foi que nessa época as roupas tomaram coloração mais sombria e triste que representava o momento tenso e incerto.
A 2ª Guerra Mundial também influenciou a moda, com uma abordagem um pouco diferente, as roupas femininas tiveram uma modelagem mais pesada inspiradas nos uniformes dos soldados que eram + pesados e sóbrios. Nessa época, os tecidos mais refinados foram substituídos por outros como os sintéticos, raiom e viscose. E assim continuou ao longo da nossa história com a influência do movimento hippie e a liberdade de expressão em resposta ao período pós guerras, rock'n'roll e é assim até hoje.

Em meio a tantas criações surgiram peças que marcaram épocas e se tornaram atemporais como o famoso vestido "pretinho básico" criado por Coco Chanel em 1926 e considerado essencial em qualquer guarda-roupa feminino. Mas já parou para notar que de certa forma a moda é cíclica? Nesse momento a moda tem se inspirado bastante no estilo dos anos 90 e 2000. Também é o momento onde começou a pensar mais para entender a conexão entre moda e sustentabilidade e é sobre isso que vamos começar a conversar hoje. Como o tema é um pouco longo, esse é apenas o 1º post. Segundo a Fundação Ellen MaCarthur os processos de produção da roupa dobrou nos últimos 15 anos.
Podemos começar pelo plantio de algodão que usa até 25% dos pesticidas usados no mundo o que contribui para contaminação e empobrecimento do solo e consequente impacto na fauna e flora local. E não para por aí, estima-se que a Indústria da moda seja o 2º maior consumidor de água (1,5 trilhão de litros por ano) e isso não é apenas para irrigação do algodão. Inclui também processos como o de alvejar e tingir os tecidos que também utilizam não apenas água como outros produtos químicos que se não bem geridos também podem contaminar o solo e água. Esses processos incluem aquelas calças jeans, tanto a desbotada como a de cor bem escura.
Isso sem considerar a parte de emissões de gases de efeito estufa, como o transporte dos produtos, quando a roupa vira um resíduo (lembrando dos retalhos da produção). Quando falamos de resíduos têxteis, sabia que 73% é queimado ou direcionado para aterro sanitário? 12% é reciclado, podendo virar recheio de colchão, pano de isolamento, pano de limpeza e menos de 1% volta a ser roupa.

Trazendo o foco para a realidade brasileira, estima-se que anualmente são descartados 175 mil toneladas de resíduo têxtil. Desse total, só 20% viram barbante, mantas, novas peças de roupa. Para você ter uma ideia, sabe a região do Bom Retiro em SP, um bairro famoso pelo comércio e produção de roupas. Por dia só nesse bairro são descartadas 12 toneladas de resíduos têxteis produzidos por pelo menos 1.200 confecções. Esses dados são da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (ABIT). E o ponto principal aqui é que a coleta desse resíduo é feita de qualquer jeito, ou seja, como lixo comum.
Em 2016 foi feita uma análise de uma peça de roupa que foi encontrada em uma tumba de mais de 5.000 anos e ela estava muito bem preservada! O tecido era feito de linho que é uma fibra natural, agora imagina todo resíduo têxtil que acaba em um aterro, quanto tempo levará para se decompor? Além da área ocupada por esse material que nem é um tipo de resíduo perigoso. Outro exemplo bem popular é o Santo Sudário, de linho e de tão preservado construíram projeções de como era a face de Jesus a partir dele. E se isso aconteceu com peças 100% orgânicas, quero dizer sem nenhum plástico adicionado, imagina como as roupas que descartamos hoje estarão em alguns anos?
Fica difícil de imaginar, as lojas cujas coleções de roupas mudam toda semana e a quantidade de plástico usado nos tecidos que chegam nos oceanos, mas temos boas notícias, nos próximos episódios vamos falar mais sobre outros impactos diretamente relacionados a sustentabilidade, ou seja, aspectos ambientais, sociais e econômicos. Inclusive explorar mais sobre problemas ainda enfrentados mas que você nem imagina, tipos de tecido, novas soluções e foco para mudança de midset, por isso, não se esqueça de se inscrever na plataforma do podcast + e fique ligado no nosso perfil @biologaroficial no instagram para não perder nada e até a próxima!
Fonte: National Geographic Brasil; Carollina Salle; Aupa; Autossus; Rmai; E-cycle; Brasil Escola;




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