Moda e Sustentabilidade - Parte 3
- biologar

- 29 de jul. de 2021
- 6 min de leitura
Sabia que ainda hoje existe trabalho escravo? Parece incoerente dizer isso em 2021 mas uma pesquisa feita pelo The Global Slavery Index (2018) mostrou que a moda é o 2º setor que mais explora o trabalho escravo do mundo. Mais de 40 milhões de pessoas estão submetidas a essa situação, onde ainda 71% são mulheres.
De acordo com o Código Penal Brasileiro o artigo 149, descreve quatro situações de trabalho análogo à escravidão:
1º Trabalho forçado: onde o trabalhador é submetido a condições de trabalho sem a possibilidade de deixar o local, por conta de dívidas, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas /ou psicológicas;
2º Condições degradantes: quando a pessoa é exposta a um conjunto de irregularidades que configuram a precarização do trabalho, colocando em risco a sua saúde e vida, e que atentam contra a sua dignidade;
3º Jornada exaustiva: onde o trabalhador é submetido a esforços físicos ou sobrecargas de trabalho e que colocam em risco a sua integridade física;
4º Servidão por dívida: como o nome diz, a pessoa é forçada a contrair ilegalmente uma dívida que a obriga a trabalhar para pagá-la e que são cobradas de forma abusiva.
Em 2018 o Brasil apontou 288 casos de trabalho escravo em condições em áreas diversas do país e esses são os casos formalmente denunciados, pode ter muito mais.
Como isso acontece no "mundo da moda"? É fácil! Dentro desse mercado há muitos fornecedores e profissionais envolvidos na produção das peças, o que facilita a "falta" de controle sobre direitos previstos em lei. Em geral essas pessoas são “obrigadas” a trabalhar jornadas bem maiores que as previstas por lei para poder pagar abrigo e alimentação.
Esse setor representa cerca de 2% do PIB mundial e movimenta a economia de diversos países afinal, todo mundo consome roupa! E num ciclo rápido até de coleções semanais! As "fast-fashion" entram aqui, com apelo do marketing, tendências rapidamente substituíveis e num valor até que acessível. Em compensação muitas vezes colocam no mercado um produto com menor qualidade. Outro ponto é que essa velocidade de consumo estimula que produtores e fornecedores busquem formas alternativas para desenvolver suas coleções e acabam por ignorar leis ou sistemas regulatórios. É bem comum que grandes marcas produzam suas peças em locais onde a legislação seja mais “flexível” (Índia, Bangladesh, Paquistão, Coréia, China). Sabe aquela etiquetinha que comentamos no post passado? Ela indica onde sua roupa foi produzida é uma prática bem comum não só para vestuário.
Algumas das maiores marcas de roupa no Brasil já foram flagradas ao explorar o trabalho escravo contemporâneo em pequenas oficinas terceirizadas, a maioria com funcionários imigrantes. O aplicativo "Moda Livre", desenvolvido pela “Repórter Brasil” (disponível no Google Play e na Apple Store) avalia desde 2013 as ações adotadas para combater o trabalho escravo entre seus fornecedores.
Desde 2010, mais de 400 costureiros e costureiras foram encontrados em condições análogas as de escravos no Brasil. As vítimas mais comuns são migrantes sul-americanos que trabalham em oficinas suscetíveis a incêndios, marcados pela falta de higiene e que muitas vezes também servem de moradia aos trabalhadores.

Já ouviu falar no “Índice de Transparência da Moda Fashion Revolution”? É uma pequisa que mede o nível de transparência da indústria e a 1ª edição brasileira foi feita em 2018 que avaliou algumas marcas e varejistas da moda (informações públicas sobre temas relacionados à responsabilidade socioambiental). É um meio bem bacana de informar os consumidores e fazer as marcas refletirem sobre suas estratégias!
Além do trabalho análogo a escravidão outro tema que chama atenção é a exploração do trabalho infantil. Caso recentemente evidenciado pelo desastre de Rana Plaza, em Bangladesh, quando uma fábrica de roupas desabou matando mais de mil pessoas em situações de exploração, mas o que poucos sabem é que existem milhões de trabalhadores para a indústria têxtil mundial em ambientes domiciliares ou informais. Levantamento feito pela Universidade de Berkley, da California, revelou que 1.452 pessoas trabalham dessa forma em um dos países que mais exportam roupas no mundo: a Índia, e mulheres e crianças compõem 95% desse tipo de trabalhador entre idades de 10 a 73 anos.
Lembra que definimos sustentabilidade como um tripé que envolve a parte ambiental, social e econômica? Ao falar sobre trabalho infantil e trabalho escravo nos referimos aos pontos sociais econômicos.Agora vamos para a próxima pergunta "tá, mas o que eu posso fazer?"
A sua parte! Consumir produtos oriundos desses tipos de serviços ilegais ajuda apenas a mantê-los, concorda? Aqui apresentamos ferramentas úteis que podem auxiliar na hora da escolha da marca da roupa, e o google também pode ajudar com informação.
Mas aí pode ser que a roupa saia mais cara que o esperado, não pode? Pode sim, mas antes de falar sobre isso quero traduzir algumas nomenclaturas comuns referentes a moda e a nova forma de lidar com ela. Começando por:
Upcycling que não é uma prática nova mas que vem sendo utilizada nos últimos tempos por conta do foco na preocupação ambiental. Na tradução livre significa “reforma” ou “reutilização” e na moda surge como uma solução que começou com pequenos artesãos e marcas autorais que estimulam você a usar a mesma peça de formas diferentes, sabe a multifuncionalidade? Isso mostra que não é necessário comprar mais coisas para ter estilo. Por exemplo, um lenço que você usa no pescoço, mas que pode ser usado como cinto ou pode usar para revestir a alça de uma bolsa, já deixa o look diferenciado, o que acha?
Moda sustentável ou "eco fashion” e esta relacionado ao momento do desenvolvimento do modelo da roupa buscando o menor impacto ambiental, ou seja, considera o esgotamento dos recursos naturais não renováveis, através do uso corantes naturais, para evitar a poluição dos oceanos e lençóis freáticos, tecidos eco-friendly, que contam com fibras orgânicas (sem agrotóxico/pesticida e inseticida), menor consumo de água e produtos químicos na produção. Até a reutilização de tecidos usados e descartados para a confecção de novas peças.
Moda circular como o próprio nome diz é o pensamento da economia circular e considera todo o ciclo de vida de um produto, desde o design da peça até o final de sua vida útil, quando normalmente acaba indo pro lixo. A moda circular tem por objetivo manter a peça final e sua matéria prima em uso contínuo, sendo o descarte apenas em seu fim de vida e de uma forma que não impacte o ambiente. Alguns exemplos são quando você troca roupas com as amigas ou revende peças.
Fast fashion que são peças produzidas em escala, com obsolescência pré programada e baixa qualidade para garantir preços baixos.
Slow fashion no caminho contrário do "fast fashion" onde as peças são produzidas em uma escala muito menor, por vezes até artesanal, prezando pela qualidade das peças para que elas sejam utilizadas por anos. Em consequência o consumo é mais lento porém consciente.
Second hand, no Brasil mais conhecido por "2ª mão" ou “passou do irmão mais velho pro mais novo” se refere as roupas que já foram usadas e que foram doadas ou revendidas. Aí vem os famosos brechós e bazares como opção de moda mais sustentável e acessível, já que ao invés de comprar algo novo, causando todo um impacto ambiental do zero, você adquire algo que já existe, atualizando o guarda-roupa e deixando o meio ambiente intacto. Fora que o custo benefício é muito bom!
Greenwashing é a ação onde algumas marcas tentam passar a impressão de que seus produtos são mais éticos e sustentáveis do que de fato são. Tem sido uma prática comum onde empresas tentam se beneficiar da procura por roupas ecológicas e sustentáveis no mercado. Por isso, é importante sempre buscar por marcas com processos transparentes. Esse termo é usado para diversos setores, fique ligado!

Aos poucos pensamentos e atitudes vão se atualizando de acordo com novas ideias e conceitos e aquele pensamento de "não posso repetir roupa" vem sendo substituído pelo "ser elegante é saber usar as roupas que tem da melhor forma possível". Temos um exemplos de famosoas que repetem o mesmo look várias vezes, a Kate Midlleton, Megan Markle, Jane Fonda, Naomi Campbell. E exemplos de brasileiras como Luisa Sonza, Mariana Goldfarb, Maísa, Fatima Bernardes, Isabella FIorentino. Mostrando que roupas bem cuidadas, com tecido de qualidade podem ser usados quantas vezes você quiser!
E vamos chegando ao fim da nossa série e esperamos que você tenha notado que tudo que envolve recurso natural, matéria-prima, produção, consumo e descarte esta super conectado com Meio Ambiente e Sustentabilidade"! E o mindset que mencionamos lá na Parte 1 que precisa ser "atualizado" é seu quanto consumidor, a escolha esta na suas mãos e as empresas só vão mudar os meios de produção se você demandar por mudanças. É assim que o mercado pode sentir a pressão para se reinventar!
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Fonte: Portalecoera1; Projetocolabora; Fashion United;




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